Rildo Costa – Publicado em 26 de out. de 2019
Conheça a história da Evoa
Tudo em Maringá, no Paraná, nasce do planejamento. E a história da aceleradora Evoa também nasceu assim.
Na década de 1990, as lideranças empresariais maringaenses começaram a se preocupar com o futuro da cidade. Na época, após muita discussão, decidiram fundar um órgão que fomentasse este desenvolvimento através da articulação das diversas forças sociais. Foi fundado, então, o Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (Codem).
Através deste órgão, as lideranças começaram a planejar o futuro da cidade. Foram sendo reunidas sugestões das pessoas, através das entidades como as igrejas, as associações, as lojas maçônicas, dentre outras organizações. Cada entidade dava uma sugestão, e as ideias compiladas em post-its para formar um planejamento unificado.
Depois desta fase inicial, as lideranças de Maringá, numa elogiável postura de humildade, se deram conta que iriam precisar de um conhecimento exterior para desenvolver a cidade. “Os empresários chegaram à conclusão de que eles não tinham o conhecimento suficiente para formular novas alternativas de desenvolvimento. E então decidiram buscar ajuda de fora”, diz Vitor Paulo Pereira Jr., assessor administrativo do Codem.
Em 2014, as lideranças começaram a busca por uma consultoria especializada. Foram consultadas grandes firmas, como Deloitte e PwC. “Foram ouvidas cinco consultorias, e todas elas diziam a mesma coisa. Elas diziam que o primeiro passo seria elaborar um plano mestre. E só a partir do plano mestre é que as políticas de desenvolvimento nasceriam”, disse Vitor Paulo.
Depois de muita sondagem, foi contratada a PwC, a um custo de R$ 1,5 milhão, pago com recursos arrecadados entre as entidades.
Os consultores da consultoria trabalharam por cerca de um ano e elaboraram o tal plano, batizado com o nome de Masterplan (“plano mestre” em inglês).
Após o planejamento ter ficado pronto, foram montadas câmaras técnicas. Essas câmaras técnicas serviriam como comitês, que iriam discutir as iniciativas em si, as miudezas do Masterplan, por assim dizer. E dentre uma dessas câmaras estava uma de tecnologia – o que nos levará ao nascimento da Evoa.

O plano original era montar um parque tecnológico em Maringá. Munido de esperança, as lideranças foram buscar ajuda em instituições bancárias em Brasília. O custo total deste parque seria de R$ 3 milhões.
Ao chegar a Brasília, as lideranças maringaenses só ouviram um “não” como resposta.
Retornando a Maringá sem conseguir concretizar o sonho, as lideranças fizeram uma tentativa no Sicoob Metropolitano. A diretoria da cooperativa na época, condoída com a causa e sem condições de dar o montante solicitado, ofereceu um valor bem inferior: R$ 600 mil.
O valor oferecido não era o que as lideranças esperavam inicialmente. Também não era suficiente para montar o parque tecnológico. Sem querer perder o recurso oferecido pelo Sicoob Metropolitano, as lideranças começaram a procurar uma alternativa mais barata. Alguém dentre eles deu a ideia de montar uma aceleradora de startup.
Assim nasceu a Evoa, uma associação sem fins lucrativos e sem nem um centavo de dinheiro público.
Desde então, a aceleradora tem feito aquilo para a qual ela foi criada para fazer: acelerar startup.
A Evoa, termo emprestado da aviação que significa “voar sem perder a sustentação”, foi inaugurada em agosto de 2017. A aceleradora fica num imóvel de 405 m², dentro do edifício do Sicoob Metropolitano. O ambiente da aceleradora tem aquela característica típica das novas empresas de tecnologia, como o Google e o Facebook. Os empreendedores trabalham juntos, vestem roupas informais, bebem café na cozinha enquanto trocam ideias, sentam no sofá num espaço batizado de Sicoob Talk. O ambiente também é repleto de robôs, impressora 3D, objetos impressos pela impressora e murais rabiscados com equações e rascunhos de projetos empresarias.

Evoa é um termo da aviação e quer dizer “voar sem perder a sustentação”
Para ser acelerada pela Evoa, a empresa precisa atender a alguns critérios. Dentre eles, por exemplo, é a maturidade do fundador, já que o empreendedor será submetido à pressão por resultado num prazo curto de tempo e terá que ter disponibilidade de ouvir críticas sobre sua empresa e seu produto. O empreender precisa ser uma pessoa desenvolvida, diferenciada. Outro critério é que a startup já tenha testado o seu produto, que eles chamam de “produto mínimo viável”, pois o objetivo da Evoa é “acelerar” uma empresa que já existe, ao invés de levantá-la do zero. Ou seja, a empresa precisa provar que ela consegue vender o seu produto no mercado, provando que há demanda pela solução que ela oferece. Na Evoa, todas as empresas aceleradas atuam no modelo B2B, ou seja, que tenha outras empresas como compradoras de seu produto.
Além dos critérios acima, é fundamental, porém, é que a empresa acelerada precisa ser uma startup. Para se encaixar nesta definição, o empreendimento precisa atender a estas três condições: precisa ser inovadora (nada do que já foi pensado antes, totalmente diferente); escalável (que tenha condições de crescer sem aumentar, na mesma proporção, o custo fixo) e reprodutível (que cada cliente da empresa use um produto comum, padronizado).
Não se encaixa na definição de uma startup, por exemplo, uma padaria. Ela não é inovadora (existe deste antes de Cristo); não é escalável (cada novo ponto aberto é uma nova despesa de estrutura e pessoal) e não é reprodutível (pois tem produtos variados, como biscoitos, pães, café e leite).
Mas se encaixa no conceito de startup, por exemplo, o Facebook. É inovador, pois trouxe uma nova proposta de comunicação. É escalável, pois não é preciso construir novas estruturas para atender novos usuários. E é reprodutível, porque todos usam a mesma plataforma, sem variação.
Ao se encaixar na definição de startup e atendendo aos critérios da Evoa, as empresas interessadas em aceleração se inscrevem para participar do processo. O processo de aceleração ocorre em ciclos, sendo uma média de três ao ano.
Uma vez iniciada a aceleração, as startups passam três meses sendo aceleradas. Neste período, elas precisam sair de um mero projeto para uma empresa lucrativa. O prazo é curto, a exigência é enorme e a batalha é cruel. Mas todas as que passaram pelo processo de aceleração pela Evoa conseguiram dar lucro. Ao todo, foram aceleradas 25 empresas, desde o nascimento da aceleradora até outubro de 2019. No momento em que esta reportagem foi escrita, oito startups estavam sendo aceleradas.
O primeiro critério para aceitar uma startup para o programa de aceleração da Evoa é este: a maturidade do empreendedor
Quando estão sendo aceleradas, a startup pode, inclusive, fazer uma mudança no seu produto. No mundo das startups, este termo é chamado de “pivotar”. Por isso, o empreendedor precisa ter maturidade, pois pode ser que ele tenha que abandonar o produto original e abraçar outro com mais propensão para dar melhores resultados.
Dentre as empresas aceleradas e que já estão dando lucro está a W3elcome, uma startup de check-in. A empresa desenvolve o robô Tinbot, que é utilizado na recepção de empresas, diminuindo custos de contratação de recepcionistas. O robô é conectado a um tablet e consegue interagir com o visitante. Na recepção da central do Sicoob Metropolitano, por exemplo, há um desses robôs.
Outra startup acelerada pela Evoa e que está operando no azul é a FarmGo. A empresa monitora bens rurais assegurados, impedindo fraudes. O software proporciona uma redução de custos para as seguradoras, já que caem os pagamentos de apólices fraudadas.
Além da aceleração, a Evoa também presta uma assessoria para empresas tradicionais, ou seja, aquelas que não são startups. Essas empresas pagam uma mensalidade para participar do Clube Evoa. Sempre que a aceleradora identifica uma inovação tecnológica que possa solucionar algum problema de uma dessas empresas do clube, a Evoa apresenta esta solução para a empresa cuja solução se encaixa. Além disso, as empresas assessoradas podem apresentar um problema que a aceleradora busca alguém que pode oferecer uma solução tecnológica. O Clube Evoa tem 25 empresas participantes, dentre elas o próprio Sicoob Metropolitano.

Outro serviço prestado pela Evoa é o coworking. O espaço é alugado para empreendedores e profissionais que queiram trabalhar num local imerso num ambiente tecnológico.
Além de ser uma aceleradora de startup que busca o lucro, a própria Evoa dá “lucro” – as aspas estão aqui porque ela é uma entidade sem fins lucrativos. A aceleradora conseguiu, por exemplo, devolver parceladamente os R$ 600 mil cedidos pelo Sicoob Metropolitano. A Evoa também consegue se manter, pagando dois funcionários integrais e os custos de operação.
Algumas empresas e entidades apoiam a Evoa financeiramente. Os apoiadores são: a Associação Comercial e Empresarial de Maringá (ACIM), a Cocamar, o Sicoob, a Sangor Seguros, a Poupa Norte e a Cocari.
O sonho das lideranças maringaenses se tornou realidade, embora não da forma como eles imaginaram inicialmente. Ou seja, as lideranças “pivotaram” o projeto inicial, deixando a ideia do parque tecnológico para fundar a aceleradora.
Embora a Evoa não seja um parque tecnológico, ela tem cumprido o mesmo papel do tal parque. “A aceleradora existe para fomentar o desenvolvimento de Maringá. Ela existe para gerar renda e emprego para a comunidade”, disse Juliana Alvarenga, gerente-executiva da Evoa. Em outras palavras, a aceleradora existe para acelerar o desenvolvimento.
Anos depois, Maringá ganhou um parque tecnológico. O sonho inicial das lideranças maringaenses também foi realizado. O Parque Tecnológico do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), foi fundado em Maringá no dia 16 de maio de 2019. Agora a cidade tem o parque e a aceleradora. Pois em Maringá é assim: primeiro se planeja – e depois se realiza.
